O discurso do Presidente Cavaco Silva foi de todos os ouvidos nestes actos, o mais contraditório, absolutista e "vanguardista" de todos os tempos. Só igualável pelos discursos de Salazar e de Marcelo Caetano, na sua assertividade e compromissos prometidos. Mas estes tinham a constituição a seu favor, o Presidente Cavaco Silva, tem a constituição em contra.
O contraditório, são as promessas feitas, cuja letra da Carta Magna, o impede. Absolutista, porque agora sim, sabe o que o país precisa e vai tratar do assunto como dono da verdade. "Vanguardista", pela audácia demonstrada na firmeza das suas palavras, como sendo inovadoras e de critério pessoal, a constatação das necessidades apregoadas. Não escutou nem leu certamente, os diversos comentários públicos desde há muito advertidos, por inúmeros comentadores e ilustres economistas.
Não consigo compreender o que significa, cito as frases: "magistratura activa empenhada na salvaguarda dos interesses nacionais". A própria "magistratura" é pela sua essência, de intervenção, juízo e decisão. Sabemos que o Presidente de Portugal não pode sequer intervir, muito menos ajuizar ou decidir, seja o que for neste país. Se afirma que o vai fazer agora, porque não o fez antes???
Prometeu e cito, que: "irá cooperar com os demais órgãos de soberania na defesa do sistema democrático"; "melhorar a qualidade das políticas públicas em relação às empresas"; "combater o flagelo do desemprego"; vai ser mais interventor na gestão do governo e até opositor se a constituição o permitir"; "compete ao presidente definir as linhas de orientação estratégica que Portugal deve seguir", entre as mais importantes. Poderá cumprir tudo isto ao abrigo desta Constituição?
Comentou e muito bem: sobre a insustentabilidade dos custos da dívida; devemos diminuir o peso da despesa pública; aposta no sector dos bens e serviços transaccionáveis; que deve ser criado o crédito para as PME's; combater o flagelo do desemprego; que a política deve deixar os interesses particulares; pautar os gestores públicos pelo mérito e não pela filiação; que as obras públicas devem ser controladas e estudadas as suas vantagens, antes de fazê-las. Tudo isto é sabido e comentado desde há muito, como parte dos grandes males congénitos, desta democracia.
Foi realmente um discurso histórico, dirigido ao povo que o elegeu. Olvidou conscientemente a classe política, ao não fazer-lhe qualquer reparo neste discurso. Muito bem.
Só errou, ao referir-se à necessidade da exploração da agricultura e das pescas, sem se desculpar por ter participado nessa aniquilação industrial, de sobrevivência para o povo mais carente.
Destacou-se ao proferir uma frase que fará história: Há limites para o que se pede ao povo que não sente a justiça social.
Todos os partidos em geral, ficaram ainda mais partidos após o seu discurso. Poucos ilustres convidados, tiveram a dignidade de o cumprimentar. É lamentável a mesquinhez, que impera nas mentes de alguns dos nossos políticos.
Como confio neste presidente e ouvindo atentamente o seu discurso, concluo que tem a intenção de suspender o governo e assumir a gestão do país. Será uma decisão muito bem-vinda e já publicada em diversos artigos, esta necessidade nacional urgente. Apresento como exemplo, um dos primeiros e mais lidos de sempre: "O desastre iminente e o Presidente" publicado a 09/10/10.
Para cumprir o prometido, terá que ir por este caminho e ficará para a história, como herói nacional.
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